Crise convulsiva focal e o uso do Diâmetro da Bainha do Nervo Óptico

Charles McElyea, MD, MPH & Michael Schick, DO
Departamento de Medicina de Emergência, Universidade da Califórnia, Davis
Tradução: Guilherme Pozueco Zaffari

Apresentação Clínica

Anamnese

Uma menina de 7 anos de idade deu entrada no pronto-socorro em estado de mal epiléptico. De acordo com a mãe da paciente, ela não apresenta história prévia de convulsões e nenhum outro problema de saúde. Entretanto, ela está se sentindo mal há vários dias, com febres e cefaleia associada.

Exame físico

Geral: Febril, não-responsiva
Cabeça, olhos, ouvidos, nariz e orofaringe: Pupilas isocóricas, lentificada, sem sinais de trauma.
Pescoço: sem rigidez de nuca
Neurológico: Movimentos tônico-clônicos focais do lado direito.

Diagnóstico Diferencial

  1. Meningite
  2. Abscesso Cerebral
  3. Hemorragia intracraniana
  4. Massa cerebral
  5. Epilepsia
  6. Ingestão tóxica

Achados em Ultrassonografia à Beira do Leito

 The patients Optic Nerve Sheath Diameter O Diâmetro da Bainha do Nervo Óptico (DBNO) da paciente mede 7,2 mm à esquerda e 7,1 mm à direita.

Diagnóstico Diferencial Baseado na Imagem

  1. Massa Cerebral
  2. Hemorragia intracraniana
  3. Abscesso Cerebral
  4. Meningite

Conduta e/ou Evolução Clínica

A paciente foi tratada com diazepam IM e intubada. Após obtenção de acesso IV, foi aplicada uma dose de lorazepam IV, com lenta resolução da atividade convulsiva. O médico assistente da UTI pediátrica solicita uma punção lombar para descartar meningite. No entanto, convulsões focais podem estar relacionadas a massa, abscesso ou sangramento focal. Há risco de herniação cerebral se uma punção lombar for realizada em um cenário de pressão intracraniana elevada. Não há tomógrafo disponível no local.

A punção lombar foi adiada no cenário de achados do DBNO consistentes com pressão intracraniana (PIC) elevada. Foram iniciados antibióticos empíricos. No dia seguinte, a paciente foi encaminhada a um centro próximo para realização de uma tomografia computadorizada de crânio, que mostrou uma grande massa cerebral no lado esquerdo com hemorragia aguda associada. Ela seguiu com piora hemodinâmica e foi colocada em cuidados paliativos no dia seguinte.

Diagnóstico

Massa cerebral com hemorragia

Discussão

A bainha do nervo óptico (BNO) consiste de líquido cefalorraquidiano (LCR) e dura-máter ao redor do nervo óptico. O diâmetro da BNO é influenciado por variações na pressão do LCR devido à sua comunicação direta com o espaço subaracnóideo. O padrão ouro atual para medir a PIC envolve a colocação de um monitor intracraniano por um neurocirurgião e traz consigo maiores riscos de sangramento, infecção e mau funcionamento mecânico. Neuroimagem também tem sido usada como meio para avaliar a pressão intracraniana, mas pode levar a problemas de segurança do paciente devido à evolução de certos processos patológicos. Além disso, a neuroimagem não está universalmente disponível - como demonstrado no caso acima - tornando mais útil o ultrassom à beira leito.

A ultrassonografia pode ser usada como um meio rápido e não invasivo de medir a PIC, embora o valor de corte exato para um DBNO normal não seja universalmente aceito. Uma análise prospectiva de um médico emergencista que realizou ultrassom em 27 pacientes dentro de 24 horas após a colocação de um dispositivo ventricular externo descobriu que um DBNO > 5,1 mm tinha uma sensibilidade de 83,3% e uma especificidade de 100% para uma PIC> 20 mmHg. Anteriormente, Amini et al. (2013) encontraram uma sensibilidade de 100% para PICs elevadas com um DBNO > 5,5 mm em um estudo de 50 pacientes não traumatizados quando o ultrassom foi realizado antes da LP com aferição da pressão de abertura. Em uma análise combinada de seis estudos em que o limiar para definir PIC elevada variou de 5,0mm a 5,9mm, a sensibilidade do DBNO para uma PIC elevada foi de 90% e a especificidade de 85%.

No geral, a medida do DBNO foi demonstrada como um método confiável de identificar PIC elevada em vários estudos. Entretanto, apesar das crescentes evidências, o ponto de corte para um limite superior do DBNO considerado normal ainda não foi definido de maneira clara. No entanto, medir o DBNO é fácil, não invasivo e pode auxiliar rápida e prontamente a tomada de decisão clínica, conforme demonstrado no caso acima.

Referências

  1. Amini, Afshin et al. Use of sonographic diameter of optic nerve sheath to estimate intracranial pressure. American J of Emergency Medicine 31, 236-239 (2013)
  2. Dubourg, Julie et al. Ultrasonography of optic nerve sheath diameter for detection of raised intracranial pressure: a systemic review and meta-analysis. Intensive Care Med 37:1059-1068, 2011.
  3. Frumin, Erica et al. Prospective Anaylsis of Single Operator Sonographic Optic Nerve Sheath Diameter Measurment for Diagnosis of Elevated Intracranial Pressure. Western J of EM XV, no2, 217-220 (2014)