Redução de intussuscepção guiada por ultrassom

Jennifer LaRoy, MD & Rebecca Stein-Wexler, MD
Departamento de Radiologia, Universidade da California Davis
Tradução: Daniel M. Pereira

Apresentação Clínica

Anamnese

Uma criança de 2 anos do sexo masculino sem história de doenças prévias apresentou-se com dor abdominal. A dor era episódica e havia aumentado de frequência ao longo de um dia. Cerca de duas semanas antes, ele teve uma infecção de vias aéreas superiores já resolvida. No dia anterior à consulta, ele teve uma evacuação dolorosa, com fezes normais, sem sangue. Não teve febre, calafrios, vômitos, diarreia, constipação ou trauma.

Exame físico

Pressão Arterial Frequência cardíaca Frequência respiratória Oximetria de Pulso Temperatura
96/64 98 22 99% em AA afebril

Geral : Desenvolvimento normal, ativo, sem distúrbios agudos.
**Abdomen: Depressível, sem distensão, indolor. Sem dor à descompressão ou defesa. Ruídos hidroaéreos normais.

Imagem e exames laboratoriais

Radiografia abdominal: Moderada quantidade de fezes distribuídas pelo cólon. Sem dilatação intestinal patológica ou ar livre intra-abdominal. Ausência de organomegalia, massa em partes moles ou calcificação anormal.

Não foram coletados exames laboratoriais.

Diagnóstico Diferencial

  1. Gastroenterite
  2. Apendicite
  3. Volvo
  4. Hérnia
  5. Intussuscepção
  6. Divertículo de Meckel
  7. Pancreatite
  8. Torção testicular
  9. Constipação

Achados em Ultrassonografia à Beira do Leito

 Image1 Corte transversal mostrando alças intestinais telescopadas no quadrante inferior direito do abdômen, criando uma aparência de alvo com 2,7cm de diâmetro. Não há líquido livre ou entre as alças.

 Image2 A aplicação de Doppler colorido mostra fluxo sanguíneo presente na parede intestinal.

 Image3 Imagem longitudinal mostra que a massa tem aproximadamente 3 cm de comprimento.

 Image4 Durante redução guiada por ultrassom, o ceco é preenchido por fluido; uma pequena massa de intussuscepção ainda está presente.

 Image5 Após a redução, não se evidencia mais a massa de intussuscepção. Há fluido separando os folhetos da válvula ileocecal e preenchendo alças distais do intestino delgado.

Diagnóstico Diferencial Baseado na Imagem

  1. Intussuscepção, provavelmente ileocólica.
  2. Intussuscepção ileoileocólica usualmente seria maior.
  3. Intussuscepção ileoileal seria menor.

Conduta e/ou Evolução Clínica

Um cateter retal calibre French 24 foi inserido e o balonete inflado com 15mL de ar. Foi administrado soro fisiológico via gotejo gravitacional com a bolsa de enema cerca de 1,5m acima do nível do leito. Houve uma redução progressiva da intussuscepção até o ceco ser preenchido por fluido, exceto por uma massa na válvula ileocecal (figura 4). A intussuscepção então foi completamente reduzida, e a válvula ileocecal foi delineada por fluido à medida em que este fluiu livremente para o intestino delgado (figura 5). Não foi identificado ponto de invaginação. Durante o procedimento, ultrassonografia periódica da pelve não demonstrou aumento de fluido que sugerisse perfuração intestinal. O paciente recebeu alta para casa após várias horas de observação, durante as quais tolerou ingesta oral e ficou sem dor.

Diagnóstico

Intussuscepção ileocólica e redução guiada por ultrassom

Discussão

Intussuscepção é uma causa comum de obstrução intestinal que tipicamente ocorre em crianças entre 3 meses a 3 anos de idade. A etiologia é frequentemente "idiopática" e associada a infecção viral recente, comumente adenovírus, resultando em hiperplasia linfóide. Com menor frequência (5 a 10% dos casos), os pontos de invaginação podem ser patológicos, tais como divertículo de Meckel, cisto de duplicação, pólipo ou linfoma.

Um diagnóstico rápido é importante para aumentar as chances de sucesso na redução com enema e minimizar o risco de isquemia intestinal. O ultrassom tem uma alta sensibilidade (98-100%) e especificidade (88-100%). O achado clássico no ultrassom é a alternância de camadas de parede intestinal hiperecóicas e hipoecóicas. Em vistas transversas, a aparência de "alvo" ou "rosquinha" (" donut" ) é causada por três camadas mucosas e musculares sobrepostas do intussuscepto (segmento distal do intestino) telescopado para dentro do intussuscepiente (segmento proximal). Em um corte longitudinal, o sinal do "pseudo-rim" é assim chamado porque a gordura mesentérica e os vasos mesentéricos tracionados para dentro do intussuscepto assemelham-se ao hilo renal.

O diâmetro médio de uma intussuscepção ileocólica que exige redução é de 2,6cm. Isso a distingue da intussuscepção transitória de intestino delgado com delgado (1,5cm), a qual não precisa de redução. O ultrassom também ajuda a predizer o sucesso da redução. A falta de fluxo sanguíneo e a presença de fluido aprisionado entre alças intestinais estão associados a uma maior probabilidade de necrose intestinal e à necessidade de ressecção intestinal em cirurgia. No entanto, a maioria considera que a redução ainda deve ser tentada se estes achados estiverem presentes.

O ultrassom é utilizado não somente para diagnosticar intussuscepção, mas também como um meio efetivo de guiar a redução hidrostática da mesma. A orientação por fluoroscopia deve ser feita de modo intermitente para reduzir a exposição à radiação. O ultrassom, entretanto, permite o monitoramento contínuo do processo de redução assim como a avaliação pós-redução para intussuscepção residual ou pontos de invaginação.

Referências

  1. Applegate K. Intussusception in children: evidence-based diagnosis and treatment. Pediatr Radiol. 2009;39 (Suppl 2):S140–S143.
  2. Hertzberg B, Middleton W, et al. Ultrasound: The Requisites. 2004. St. Louis, Mo: Mosby.
  3. Ogundoyin O, Atalabi O, Lawal T, Olulana D. Experience with Sonogram-guided hydrostatic reduction of Intussusception in Children in South-West Nigeria. J West Afr Coll Surg. 2013 Apr-Jun; 3(2): 76–88.