Infecção necrosante de partes moles (INPM)

Ryan C. Gibbons, MD, FAAEM, FACEP
Escola de medicina Lewis Katz, Temple University
Tradução: Guilherme Pozueco Zaffari

Apresentação clínica

Anamnese

Um homem afro-americano de 64 anos com história de diabetes mellitus insulino-dependente e hipertensão apresentou-se ao pronto-socorro por dor atraumática no pé direito, edema e drenagem purulenta há 1 semana.

Exame físico

Pressão arterial Frequência cardíaca Frequência respiratória Oximetria de pulso Temperatura
180/96 103 16 96% 38,1

Geral: Bom estado geral, sem evidência de trauma.
Cabeça, olhos, orelhas e orofaringe: Mucosas secas
Cervical: Sem distensão venosa jugular ou linfadenopatia
Cardiovascular: Taquicárdico, ritmo normal, sem murmúrio
Respiratório: Ausculta limpa bilateralmente.
Abdômen: depressível, normotenso, indolor à palpação, sem peritonismo
Neurológico: Acordado e alerta, obedecendo a comandos, mobilizando todas as extremidades.
Pele: Necrose do segundo pododáctilo, ferida aberta no pé direito com drenagem purulenta, sem crepitação notada, dor local.

Imagem e exames laboratoriais Lactato: 2.4  Figure 1

 Figure 2

Ar no subcutâneo observado em radiografia simples.

Escore LRINEC: 7
PCR: 50 ( ⩾15 = +4)
Leucócitos: 20 (15-25 = +1)
Hemoglobina: 12.5 (11-13.5 = +1)
Sódio: 135 (⩾135 = 0)
Creatinina: 1.39 (<1.6 = 0)
Glicose: 380 (>180 = +1)

Diagnóstico Diferencial

  1. Celulite
  2. Abscesso
  3. Infecção necrotizante de tecidos moles
  4. Osteomielite
  5. Artrite séptica
  6. Trombose venosa profunda

Achados em Ultrassonografia à Beira do Leito

As imagens de ultrassom a beira leito (POCUS) demonstraram edema subcutâneo (padrão em "paralelepípedos"), e artefato hiperecóico no tecido mole com sombra cinzenta pelo ar e linhas A consistentes com enfisema subcutâneo.

 Figure 3

Achados ultrassonográficos de POCUS com infecção necrotizante de tecidos moles.

 Figure 4

Achados de ultrassom a beira leito de infecção necrotizante de tecidos moles. Linhas A.

 Figure 5

Infecção necrotizante do tecido mole com linhas A (consistente com ar subcutâneo).

 Figure 6

Infecção necrotizante do tecido mole com linhas A (consistente com ar subcutâneo).

 Figure 7

Infecção necrosante dos tecidos moles com padrão em "paralelepípedos" e sombra de ar "sujo" (heterogêneo/irregular).

Diagnóstico Diferencial Baseado na Imagem

  1. Infecção necrosante de partes moles
  2. Celulite

Conduta e/ou Evolução Clínica

O paciente recebeu vancomicina, piperacilina/tazobactam e clindamicina. A equipe da podologia foi consultada imediatamente e admitiu o paciente na unidade de terapia intensiva cirúrgica (SICU) após realizar uma amputação de Chopart. O paciente teve uma boa evolução na internação hospitalar e recebeu alta para casa.

Diagnóstico

Infecção necrosante de partes moles

Discussão

As infecções necrosantes de partes moles (INPM) são polimicrobianas, com mortalidade considerável variando entre 20-75%, especialmente quando o diagnóstico não é realizado ou ocorre tardiamente. Tradicionalmente, são descritos três tipos: celulite, fasceíte e miosite. Fatores de risco típicos incluem uso de drogas intravenosas, diabetes não-controlada, imunossupressão, cirurgia ou trauma recente, doença renal crônica (DRC), obesidade e uso abusivo de álcool. O diagnóstico é desafiador, pois os sinais e sintomas do exame físico variam entre assintomático a até choque séptico. Na verdade, o diagnóstico baseado apenas no exame físico não identifica mais de 60% dos casos. Os achados localizados incluem edema, equimoses, bolhas ou bolhas hemorrágicas, crepitação e necrose do tecido. Infelizmente, esses achados costumam ser observados no final do curso da infecção. Sem mencionar que o achado clássico de "dor desproporcional" costuma estar ausente. Portanto, é imperativo manter um alto índice de suspeição. Um exame de pele completo, incluindo o períneo, é essencial em pacientes com febres inexplicáveis.

Os valores laboratoriais e as modalidades de imagem são auxiliares para o diagnóstico de INPM. As anormalidades laboratoriais clássicas incluem leucocitose significativa, hiponatremia e acidose láctica. O escore LRINEC foi desenvolvido para auxiliar no diagnóstico de INPM, mas teve um desempenho insatisfatório durante a validação externa. Radiografias simples têm sensibilidade semelhante ao exame físico (<50%). Atualmente, a tomografia computadorizada (TC) é o padrão-ouro para o diagnóstico de INPM, devido à sua sensibilidade >94%. O tratamento inclui ressuscitação adequada, administração precoce de antibióticos de amplo espectro (vancomicina, piperacilina/tazobactam e clindamicina) e avaliação cirúrgica imediata.

Os dados são limitados, mas a ultrassonografia à beira-leito (POCUS) parece ser um meio eficaz para agilizar o diagnóstico e o tratamento de INPM, especialmente em locais com recursos limitados e sem acesso à TC. A sensibilidade do POCUS aproxima-se de 90%. Deve ser utilizado o transdutor linear de alta frequência. Os achados característicos incluem tecido subcutâneo e/ou fáscia espessada, fluido ao longo do plano fascial e enfisema subcutâneo. Certifique-se de comparar o lado afetado com o não afetado.

Referências

  1. S.M. Fernando, A. Tran, W. Cheng, et al. Necrotizing soft tissue infection: diagnostic accuracy of physical examination, imaging, and LRINEC score: a systematic review and meta-analysis. Ann Surg 2019;269(1):58-65.Z.S.
  2. Yen, H.P. Wang, H.M. Ma, et al. Ultrasonographic screening of clinically suspected necrotizing fasciitis. Acad Emerg Med 2002;9(12):1448-1451.
  3. L. Oelze, S. Wu, & J. Carnell. Emergency ultrasonography for the early diagnosis of necrotizing fasciitis: a case series from the ED. Am J Emerg Med 2013;31(3):632-635.