Abscesso hepático amebiano

Dr. R. Wahome & Dr. D. Mirsch
Universidade de Ciência e Tecnologia de Mbarara e Universidade de Buffalo
Tradução: Guilherme Pozueco Zaffari

Apresentação Clínica

História

Uma mulher de 24 anos vem a uma emergência no sul de Uganda com queixa principal de sudorese noturna há três semanas. Seus sintomas progrediram gradualmente com o aumento da dor abdominal, localizada no quadrante superior direito, e uma história de inchaço abdominal com seis dias de evolução. 24 horas antes da apresentação, ela iniciou com vômitos pós-prandiais, febre e incapacidade de evacuar ou soltar flatos. Os hábitos intestinal e urinário estavam previamente normais. Ela relata episódios de diarreia aproximadamente uma vez por mês durante o último ano. A diarreia foi tratada com antibióticos de venda livre sem prescrição, com resolução dos sintomas. A paciente é diabética recém-diagnosticada (2 meses) e o único medicamento de uso contínuo é insulina.

Exame físico

Pressão Arterial Frequência cardíaca Frequência respiratória Oximetria de pulso Temperatura
87/65 114 29 98% 38,2

Geral: apática, pálida, ictérica, com linfadenopatia difusa e edema depressível e moderado.
Cardiovascular: tempo de enchimento capilar prolongado, pulsos periféricos filiformes. Precórdio hiperativo, mas sem bulha extra. Pressão venosa jugular baixa.
Respiratório: sem esforço ventilatório. Taquipneia presente, a traqueia é centrada com murmúrio vesicular simétrico bilateralmente. Percussão normal.
Abdômen: bastante distendido, marcadamente tenso à palpação superficial, principalmente em quadrante superior direito. Fígado aumentado de tamanho com cerca de 18 cm. Sinal de murphy negativo (físico e ultrassonográfico). Sinal do piparote negativo e sem sinais de líquido livre. Ruídos hidroaéreos reduzidos.
Extremidades: edema com cacifo moderado bilateralmente, não tenso e não doloroso.

Imagem e exames laboratoriais

Rx de tórax: normal
Hemograma completo: 16 mil leucócitos com neutrofilia, Hemoglobina de 10gm/dl, normocitemia e normocromia, com 236 mil plaquetas
Glicemia capilar: 175 mg/dL
Função hepática dignas de nota (painel limitado): Bilirrubinas com aumento de 3x o valor de referência às custas de bilirrubinas conjugadas; ALT e AST 2x o valor de referência.
Hepatite B e C, malária e HIV não reagentes

Diagnóstico Diferencial

  1. Coledocolitíase aguda / colecistite
  2. Tumor hepático
  3. Obstrução intestinal
  4. Tumor pancreático
  5. Infecção por Salmonella typhi
  6. Abscesso hepático
  7. Úlcera perfurada

Achados em Ultrassonografia à Beira do Leito

 Image1.gif  Image3.gif Dois videoclipes de uma grande massa solitária no lobo direito do fígado. A massa apresenta ecogenicidade mista com bordas distintas, contíguas ao diafragma.

 Image4.gif Quadrante superior direito do abdômen. Nenhum fluido livre apreciável no abdômen ou espaço pleural.

Diagnóstico Diferencial Baseado na Imagem

  1. Abscesso hepático amebiano com sepse
  2. Abscesso hepático piogênico com sepse
  3. Tumor metastático ou primário com transformação hemorrágica/coinfecção

Conduta e/ou Evolução Clínica

A paciente foi submetida à laparotomia exploradora, sendo encontrado um abscesso amebiano roto, lentamente vazando para a cavidade peritoneal. O abscesso foi drenado no bloco cirúrgico e foram iniciados antibióticos de amplo espectro, incluindo metronidazol. A paciente foi admitida na unidade de terapia intensiva devido a sinais vitais instáveis e, apesar de extensa reanimação, faleceu 24 horas após a operação.

Diagnóstico

Abscesso hepático amebiano, peritonite e choque séptico.

Discussão

A amebíase é uma das infecções mais comuns em todo o mundo, afetando até 10% de toda a população. É causada pelo protozoário Entamoeba Histolytica, com transmissão fecal-oral principalmente por alimentos e água contaminados, mas também pode ser transmitida sexualmente. Apresenta-se principalmente por acometimento intestinal, mas manifestações extra-intestinais também podem ocorrer em diversos órgãos. O fígado é o órgão extra-intestinal mais comumente afetado.

As infecções são mais comuns em homens de 18 a 50 anos. Uma vez que os cistos são ingeridos, eles germinam em trofozoítos que se fixam ao epitélio intestinal, enquanto alguns invadem o cólon para se espalhar para o fígado e peritônio. Estes trofozoítos causam inflamação hepática e necrose, levando à formação de um abscesso. A infecção geralmente se desenvolve de 2 a 4 semanas após a exposição. Geralmente inicia com febre, dor moderada constante na região epigástrica ou no quadrante superior direito e náuseas. Os sintomas podem progredir com diarreia ou constipação, vômitos, distensão abdominal, perda de peso ou até tosse seca devido à irritação diafragmática. No exame físico, pode ser encontrada hepatomegalia e dor à palpação no quadrante superior direito. Icterícia é um achado raro associado principalmente a abscessos piogênicos. A complicação mais temida é a ruptura do abscesso para os espaços pericárdicos ou pleurais.

Ecografia tem sido um método fundamental para diagnosticar abscessos hepáticos amebianos e novas recomendações incentivam a realização da ultrassonografia à beira leito. A mesma é utilizada para monitorar a resolução de abscessos durante o tratamento. Os abscessos são mais comumente encontrados no lobo direito do fígado como massas solitárias, periféricas, com centros hipoecóicos e sem bordas ou cápsulas identificáveis. A biópsia guiada por ultrassom normalmente reproduz a característica de cor e consistência de um molho de "anchova". Outras modalidades de investigação incluem tomografia computadorizada e ressonância magnética, enquanto a análise de fezes e ELISA podem auxiliar na confirmação do diagnóstico. O tratamento depende do tamanho do abscesso. Abcessos grandes são drenados de maneira percutânea sob orientação de ultrassom ou cirurgicamente. Metronidazol é o antibiótico de escolha.

Referências

  1. Marx JA, Hockberger RS, Walls RM. Rosen's Emergency Medicine Concepts and Clinical Practice. 8th edition ed. Biros MH, Ling LJ, Danzl DF, J.Newton E, Gausche-hill M, Zink BJ, et al., editors. Philadelphia: Elsevier Saunders; 2014.
  2. Bélard S, Tamarozzi F, Bustinduy AL, Wallrauch C, Grobusch MP, Kuhn W, et al. Point-of-Care Ultrasound Assessment of Tropical Infectious Diseases—A Review of Applications and Perspectives. The American Journal of Tropical Medicine and Hygiene. 2016;94(1):8-21.
  3. Prakash V, Jackson-Akers JY, Oliver TI. Amebic Liver Abscess. [Updated 2019 Nov 7]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2020 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK430832/