Miocardiopatia Periparto

Albert Mugisa, Deus Twinomugisha, ECP, Tracy Walczynski, MD, & Michael Schick, DO
Cuidado Global de Emergência,Universidade Mbarara de Ciência e Tecnologia, Uganda, Departamento de Medicina de Emergência, Hospital Alice Springs, Território do Norte, Austrália,Departamento de Medicina de Emergência, Universidade da Califórnia, Davis
Tradução: Guilherme Pozueco Zaffari

Apresentação clínica

Anamnese

Duas irmãs buscaram o Departamento de Emergência (DE) com a preocupação de que seus abdomens estivessem aumentando no pós-parto. Não havia sintomas infecciosos ou dor torácica associados. Nenhuma das irmãs tinha história médica pregressa significativa, especificamente sem hipertensão. Sem relato de alergia ou uso de medicações contínuas.

IRMÃ 1 IRMÃ 2
29 anos G3P2C1 Cesariana por parto distócico dois meses antes da apresentação Avaliações pré-natais normais.
Relato de desenvolvimento de distensão abdominal, edema periférico e dispneia paroxística noturna durante o pós-parto. 29 anos G2P2 Parto vaginal espontâneo um mês antes da apresentação. Avaliações pré-natais normais.
Desenvolveu falta de ar aos mínimos esforços, associada a distensão abdominal e edema periférico no pós-parto.

Exame físico

Irmã Pressão arterial Frequência cardíaca Frequência respiratória Oximetria de pulso Temperatura
1 120/65 105 30 99 36,2
2 106/90 127 35 95 N/D

N/D = não disponível

A oximetria de pulso da irmã 2 cai para 90% quando deitada

Irmã 1 Irmã 2
Geral Boa aparência, sem queixas agudas Mulher magra com distensão abdominal evidente e dificuldade respiratória moderada
Cabeça, olhos, ouvido e garganta Palidez conjuntival leve Palidez conjuntival leve
Pescoço Turgência jugular, com mobilidade cervical preservada, sem meningismo Turgência jugular, com mobilidade cervical preservada, sem meningismo
Cardiovascular Discreta e regular taquicardia, sem sopros, atrito ou galope Moderada e regular taquicardia, com sopro diastólico, sem atrito ou galope
Respiratório Respirando confortavelmente em ar ambiente quando sentada, com ortopneia deitada em decúbito dorsal. Murmúrios respiratórios reduzidos e macicez à percussão na base do lobo inferior direito, sem sibilos e estertores Esforço respiratório, taquipnéia, uso de musculatura acessória. Ortopneia, incapaz de tolerar a posição supina. Murmúrio reduzido em bases bilateralmente e macicez à percussão bilateral
Abdômen Abdome grosseiramente distendido, normotenso à palpação, sem organomegalia palpável (limitada pela distensão) Abdômen distendido e tenso
Músculo-esquelético Tônus muscular normal Tônus muscular normal
Extremidades Edema periférico +3, sem trauma ou deformidades. Membros superiores e inferiores com pulsos simétricos e palpáveis Edema periférico +3, sem trauma ou deformidades. Membros superiores e inferiores com pulsos simétricos e palpáveis
Neurológico Alerta e orientada x4, sem déficit neurológico focal Alerta e orientada x4, sem déficit neurológico focal
Pele Sem erupções cutâneas ou lesões. Edema com cacifo que se estende até o meio da coxa. Sem edema sacral. Sem erupções cutâneas ou lesões. Edema com cacifo que se estende até o abdômen inferior
Psiquiátrico Processo de pensamento linear, bom julgamento, humor normal Processo de pensamento linear, bom julgamento, ansiosa

Imagem e exames laboratoriais  Sister 1 and 2
Diagnóstico Diferencial

  1. Miocardiopatia periparto
  2. Miocardiopatia dilatada idiopática
  3. Doença cardiovascular
  4. Miocardite
  5. Tuberculose pulmonar/extrapulmonar
  6. Síndrome de Meigs

Achados em Ultrassonografia à Beira do Leito

Irmã 1

Trans-thoracic echocardiogram1 Ecocardiograma transtorácico, corte paraesternal eixo longo, demonstrando hipocinesia global e fração de ejeção ventricular esquerda severamente reduzida.

Trans-thoracic echocardiogram2 Ecocardiograma transtorácico, janela paraesternal eixo curto, demonstrando hipocinesia global e fração de ejeção ventricular esquerda severamente reduzida.

Trans-thoracic echocardiogram, apical 4 chamber Ecocardiograma transtorácico, janela apical de quatro câmaras, demonstrando hipocinesia global e fração de ejeção ventricular esquerda severamente reduzida.

Apex of the left lung Ápice do pulmão esquerdo demonstrando linhas B indicando fluido intersticial.

Right upper quadrant Janela do quadrante superior direito demonstrando grande derrame pleural e líquido livre sob o diafragma.

Sagittal pelvic Janela sagital pélvica demonstrando grande quantidade de líquido intra-abdominal livre.

E-point Septal Separation measuring Separação septal do ponto E medindo 1,47 cm, indicando uma função sistólica do ventrículo esquerdo de 37%.

Irmã 2

Trans-thoracic echocardiogram Ecocardiograma transtorácico, janela paraesternal eixo longo, demonstrando hipocinesia global, fração de ejeção ventricular esquerda severamente reduzida e pequeno derrame pericárdico.

Trans-thoracic echocardiogram Ecocardiograma transtorácico, janela paraesternal eixo curto, demonstrando hipocinesia global, fração de ejeção ventricular esquerda severamente reduzida e pequeno derrame pericárdico.

Trans-thoracic echocardiogram Ecocardiograma transtorácico, janela subxifóide, demonstrando líquido livre intra-abdominal, um pequeno derrame pericárdico e hipocinesia global.

Right upper quadrant Janela do quadrante superior direito demonstrando grande derrame pleural e líquido livre sob o diafragma.

Right upper quadrant Janela do quadrante superior direito do abdome com líquido livre ao redor da ponta do fígado e no recesso hepatorrenal.

Sagittal pelvic Janela sagital pélvica com líquido livre em torno do útero.

E-point Septal Separation Separação septal do ponto E medindo 2,12 cm, indicando uma função sistólica do ventrículo esquerdo de 22%.

Diagnóstico Diferencial Baseado na Imagem

  1. Miocardiopatia Periparto
  2. Tuberculose - pulmonar e extrapulmonar

Conduta e/ou Evolução Clínica

Ambas irmãs foram internadas no hospital para início de tratamento, que incluiu uso de diuréticos (furosemida, espironolactona), antiarrítmicos (digoxina) e inibidores da enzima da angiotensina (captopril). Ambas irmãs melhoraram consideravelmente e tiveram alta no quinto dia. Na alta, a irmã 1 apresentou hipotensão sintomática com pressão arterial de 90/50 mmHg em posição supina, de modo que os diuréticos foram suspensos. Isso presumivelmente precipitou uma reapresentação com dispneia no dia 14, exigindo uma paracentese terapêutica e reintrodução de diuréticos.

Diagnóstico

Miocardiopatia Periparto

Discussão

A miocardiopatia periparto (MCPP) é comumente considerada uma condição idiopática. Os sintomas de insuficiência cardíaca congestiva se desenvolvem secundários à disfunção sistólica do ventrículo esquerdo. É um diagnóstico de exclusão que requer uma avaliação completa para garantir que não haja fatores causais alternativos. A ecocardiografia é um componente chave do diagnóstico. Existem vários estudos investigando a possibilidade de uma predisposição genética. Esta teoria é de particular relevância para as irmãs aqui apresentadas. É raro ter a oportunidade de investigar duas irmãs com a mesma sintomatologia apresentando-se simultaneamente. Certamente, há uma incidência maior entre as mulheres afrodescendentes, com estudos sugerindo um risco relativo 15,7 vezes maior de MCPP.

Os critérios diagnósticos propostos inicialmente definem a MCPP como uma fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) reduzida <45% apresentando-se no final da gravidez ou nos cinco meses após o parto, em uma mulher sem doença cardíaca estrutural previamente conhecida. Nas pacientes do caso, a FEVE foi estimada em 22% e 38% usando medições da separação septal do ponto E (SSPE). O SSPE mede a separação entre o folheto anterior da válvula mitral e o septo no início da diástole. A FEVE é então extrapolada a partir dessa medição usando as fórmulas 75- (2,5 × SSPE). Certamente, para o emergencista à beira do leito, o SSPE é facilmente ensinado e muito mais rápido de realizar do que uma avaliação ecocardiográfica complexa. Além disso, é adequado para locais de saúde com poucos recursos.

A ecocardiografia formal como ferramenta diagnóstica não é facilmente acessível ou financeiramente viável em países com recursos limitados. A ultrassonografia à beira leito (POCUS) foi vital para orientar o diagnóstico e o tratamento da MCPP nestes casos.

Referências

  1. Lindley KJ, Verma AK, Blauwet LA. Peripartum Cardiomyopathy: Progress in Understanding the Etiology, Management, and Prognosis. Heart Failure Clinics. 2019;15(1):29-39
  2. Gentry MB, Dias JK, Luis A, Patel R, Thornton J, Reed GL. African-American Women Have a Higher Risk for Developing Peripartum Cardiomyopathy. Journal of the American College of Cardiology. 2010;55(7):654-9.
  3. Demakis GJ, Rahimtoola HS. Peripartum Cardiomyopathy. Circulation. 1971;44(5):964-8.
  4. McKaigney CJ, Krantz MJ, La Rocque CL, Hurst ND, Buchanan MS, Kendall JL. E-point Septal Separation: a Bedside Tool for Emergency Physician Assessment of Left Ventricular Ejection Fraction. The American Journal of Emergency Medicine. 2014;32(6):493-7.
  5. Silverstein JR, Laffely NH, Rifkin RD. Quantitative Estimation of Left Ventricular Ejection Fraction from Mitral Valve E-Point to Septal Separation and Comparison to Magnetic Resonance Imaging. The American Journal of Cardiology. 2006;97(1):137-40.