Abscesso Subperiosteal

Kristopher de Ga, MD
Departamento de Radiologia, Universidade da Califórnia, Davis
Tradução: Daniel M. Pereira

Apresentação Clínica

Anamnese

Um paciente masculino de 15 anos com anemia falciforme queixa-se de dor intensa de início agudo na sua região lombar e nos membros inferiores bilateralmente. Ele notou edema das extremidades nos últimos dias e tem tido fadiga e sensação de febre há 1 semana. A dor piora com o movimento e não é aliviada pelos analgésicos que costuma tomar em casa. A dor é mais intensa do que crises álgicas prévias. O histórico cirúrgico prévio inclui apendicectomia e colecistectomia.

Exame físico

Pressão Arterial Frequência Cardíaca Frequência Respiratória Oximetria de pulso Temperatura
128/72 98 16 97% 37.8 °C

Ectoscopia: Desperto, alerta, com desconforto moderado.
Musculoesquelético: Dor com flexão/extensão dos joelhos, mas amplitude do movimento preservada.
Extremidades: Eritema e calor sobre as tíbias bilaterais. Lesões nodulares sensíveis sobre as tíbias bilaterais.
Neurológico: Reflexos simétricos nas extremidades superiores e inferiores.

Exames laboratoriais
 Lab results
Prot. C Reativa- 25.7 mg/dL
Veloc. Hemossedimentação- 67mm/h

Diagnóstico Diferencial

  1. Crise vaso-oclusiva aguda
  2. Osteomielite
  3. Artrite séptica
  4. Infecção viral
  5. Neoplasia maligna - Sarcoma de Ewing, leucemia
  6. Trauma acidental
  7. Trauma não acidental

Achados em Ultrassonografia à Beira do Leito

 Figure 1 Ultrassom longitudinal em escala de cinza da tíbia esquerda (T) mostra uma coleção líquida heterogênea (*) entre o córtex tibial (setas brancas) e o periósteo elevado (pontas de seta pretas).

 Figure 2 Ultrassom longitudinal em escala de cinza da tíbia direita (T) demonstra uma coleção líquida (*) similar de 3,1 x 0,6cm entre o córtex tibial (setas brancas) e o periósteo (pontas de seta pretas). Note a configuração "em V" do periósteo e córtex nas margens da coleção líquida.

 Figure 3 Ultrassom com doppler colorido da tíbia direita mostra ausência de fluxo vascular dentro da coleção subperiosteal. Note o artefato de imagem em espelho.

Diagnóstico Diferencial Baseado na Imagem

  1. Osteomielite multifocal com abscessos subperiosteais
  2. Crise vaso-oclusiva com coleções subperiosteais

Conduta e/ou Evolução Clínica

O paciente foi internado para analgesia e antibióticos intravenosos. Foi realizada incisão e drenagem das coleções subperiosteais tibiais bilaterais, com amostras do fluido demonstrando numerosas células inflamatórias. No entanto, exames culturais não mostraram crescimento bacteriano. Baseado na alta suspeita clínica de infecção, o paciente completou uma semana de antibióticos intravenosos e por fim retornou ao seu estado basal.

Diagnóstico

Osteomielite multifocal com abscessos subperiosteais

Discussão

Abscesso subperiosteal é uma complicação bem conhecida da osteomielite aguda em crianças. A osteomielite aguda tem uma incidência de 1 em cada 500 a 2300 crianças em países em desenvolvimento, com complicações como abscesso subperiosteal ocorrendo em cerca de 9% dos casos. Staphylococcus aureus é o agente infeccioso mais comum, enquanto espécies de Salmonella são comuns em pacientes com anemia falciforme, e infecção por Pseudomonas aeruginosa é vista em casos de ferimentos perfurantes. A osteomielite em crianças tipicamente resulta da disseminação hematogênica de bactérias para a metáfise, e a implantação em múltiplos sítios não é incomum. A infecção pode rapidamente se espalhar para o espaço subperiosteal e partes moles adjacentes. Um abscesso subperiosteal se forma quando pus se coleciona entre a camada fibrosa do periósteo e o córtex subjacente.

Apesar de a sensibilidade e especificidade do ultrassom serem limitadas para osteomielite não complicada, ele pode mostrar espessamento periosteal e edema de partes moles profundas enquanto as radiografias ainda estão normais. Ele também pode demonstrar complicações da osteomielite. Há suspeita de abscesso subperiosteal quando o periósteo ecogênico está separado do córtex ecogênico por uma coleção líquida de ecogenicidade baixa ou mista. Uma configuração "em V" do periósteo e córtex nas margens da coleção ajuda a diferenciar entre abscesso subperiosteal e de partes moles.

Coleções não infecciosas de líquido também foram relatadas em crises vaso-oclusivas de anemia falciforme e podem ser sonograficamente indistinguíveis de abscessos subperiosteais. Alguns estudos sugerem que coleções ≥4 mm de diâmetro têm maior probabilidade de representar abscesso subperiosteal. No entanto, os achados clínicos e laboratoriais do paciente também devem ser considerados. A aspiração guiada por ultrassom pode ser benéfica para propósitos diagnósticos e terapêuticos, embora a identificação do organismo infeccioso frequentemente não tenha sucesso.

Referências

  1. Inusa BPD, Oyewo A, Brokke F, Santhikumaran G, Jogeesvaran KH. Dilemma in Differentiating between Acute Osteomyelitis and Bone Infarction in Children with Sickle Cell Disease: The Role of Ultrasound. PLOS ONE . 2013;8(6):e65001. doi:10.1371/journal.pone.0065001
  2. Jaramillo D, Dormans JP, Delgado J, Laor T, St Geme JW. Hematogenous Osteomyelitis in Infants and Children: Imaging of a Changing Disease. Radiology . 2017;283(3):629-643. doi:10.1148/radiol.2017151929
  3. Kaiser S, Rosenborg M. Early detection of subperiosteal abscesses by ultrasonography. Pediatr Radiol . 1994;24(5):336-339. doi:10.1007/BF02012120