Christine McBeth, DO, MSPH
Departamentode Medicina de Emergência, Universidade da Califórnia, Davis
Tradução: Guilherme Pozueco Zaffari
Uma mulher de 42 anos proveniente da Uganda vem por queixa de falta de ar há vários meses que piorou agudamente nos últimos dois dias. Tem história de doença cardíaca desconhecida e havia sido submetida a uma pericardiocentese há dois meses, tendo melhorado alguns de seus sintomas. Ela teve ganho de peso progressivo, edema, tosse e falta de ar.
| Pressão arterial | Frequência cardíaca | Frequência respiratória | Oximetria de pulso | Temperatura |
|---|---|---|---|---|
| 65/30 | 145 | 48 | Desconhecida | 36°C |
Geral:
Mal estado geral, taquipneica, obnubilada
Cardiovascular:
Taquicárdica, ritmo irregularmente irregular, sem sopros, TVJ positiva
Respiratório:
Sentada em posição de tripé, taquipneica, estertores difusos
Imagem e exames laboratoriais
Radiografia de tórax: coração de tamanho normal, edema pulmonar difuso, sem derrame pleural ou infiltrados
Diagnóstico Diferencial
Legenda:
RA: átrio direito
LE: átrio esquerdo
RV: ventrículo direito
LV: ventrículo esquerdo
PCE: derrame pericárdico
IVC: veia cava inferior
**: trombo intra-atrial
Janela subxifóide: derrame pericárdico pequeno a moderado; átrio direito e átrio esquerdo acentuadamente aumentados; trombo em átrio direito, sem colapso; ventrículos direito e esquerdo pouco visíveis (constritos).
Janela paraesternalcurta: derrame pericárdico moderado; átrio direito acentuadamente aumentado, incapaz de visualizar o ventrículo direito.
VCI: átrio direito acentuadamente aumentado com VCI pletórica.
Diagnóstico Diferencial Baseado na Imagem
Ce/ou Evolução Clínica
A paciente foi colocada em oxigênio e recebeu 80mg de furosemida IV. Foi decidido que, devido aos achados ultrassonográficos, ela não apresentava tamponamento e não foi realizada pericardiocentese. Foi então iniciado epinefrina em gotejamento, diluindo-se 1 mg de epinefrina em 1000ml de solução salina aberta livremente através de acesso venoso periférico com abocath 18 e também iniciado antibióticos de amplo espectro. A paciente faleceu dentro de 24 horas.
Diagnóstico
Endomiocardiofibrose tropical
Discussão
A endomiocardiofibrose tropical (EMF) foi descrita pela primeira vez na década de 1940 e permanece uma causa complexa e enigmática de cardiomiopatia restritiva. A maioria dos casos descritos estão agrupados ao redor da linha do Equador, na África, com casos também descritos na Ásia e na América do Sul. Esta doença é mais frequente em pessoas afetadas pela pobreza e tem distribuição bimodal aos 10 e 30 anos, com prognóstico muito ruins a longo prazo, apresentando mortalidade de aproximadamente 75% em dois anos. A etiologia da EMF não é bem definida, mas acredita-se em causas multifatoriais incluindo pobreza, desnutrição protéica, infecção parasitária, eosinofilia, genética e autoimunidade. A fase aguda está associada a inflamação e altos níveis de eosinofilia, mas é de difícil detecção e diagnóstico. A fase crônica apresenta sintomas como edema periférico, ascite e sinais de desnutrição e é caracterizada por fibrose endocárdica nos ventrículos, bem como nas valvas atrioventriculares, o que pode levar à insuficiência mitral e tricúspide. Anormalidades valvares podem causar dilatação dos átrios, o que pode levar à fibrilação atrial e trombose. A ecocardiografia é o exame diagnóstico padrão, apresentando achados de endocárdio espessado, átrios severamente dilatados, disfunção de válvula atrioventricular, ventrículos retraídos e frequentemente trombos apicais. Estas alterações podem ser diferenciadas da pericardite constritiva associada à tuberculose pela normalidade da espessura pericárdica. As opções de tratamento incluem esteróides para benefício anti-inflamatório, embora não haja melhora na sobrevida, tratamento da insuficiência cardíaca sintomática, anticoagulantes e manejo cirúrgico, como endocardectomia e reparo valvar, se disponível.
Referências